OK432

Tratamento dos Linfangiomas com OK432 - Picibanil®

Dra Heloisa G. A. Campos

Os linfangiomas são lesões císticas e benignas, decorrentes da má-formação do tecido vascular linfático. Ainda que relativamente raros, representam 5,6% de todos os tumores benignos da infância.

Os linfangiomas comprometem igualmente os dois sexos, sendo mais frequentes no segmento cefálico, aonde também denominados "higromas císticos". Nesta localização podem provocar deformidade, disfagia, disartria, disfonia, e favorecer infecções recorrentes.

Os linfangiomas podem ser superficiais ou profundos. Os linfangiomas superficiais em geral são microcísticos, observados clinicamente como vesículas translúcidas na pele e mucosa. Os linfangiomas profundos podem ser micro ou macrocísticos.

Em geral, o diagnóstico dos linfangiomas é estabelecido com dados clínicos, constatando-se a presença de um tumor de partes moles, com consistência cística. A pele e a mucosa podem apresentar vesículas translúcidas características. Os linfangiomas apresentam episódios recorrentes de linfangite, cujo quadro clinico característico inclui aumento abrupto das dimensões da lesão, dor local, sinais flogísticos e febre.

Por se tratar de uma lesão com natureza infiltrativa, a avaliação completa dos linfangiomas inclui estudo com exames de imagem: ultrassonografia (USG), tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) ou angioressonância.

Em geral, os linfangiomas progridem lentamente e a resolução espontânea ocorre raramente, sendo que aqueles com maior potencial de gravidade são os de região cervical pelo risco de comprometimento das vias aéreas e digestivas.

Na literatura encontramos a recomendação de intervenção terapêutica devido ao caráter progressivo dos linfangiomas, por causarem deformidade, e pela recorrência de episódios de linfangite.

O tratamento clássico para os linfangiomas é a ressecção completa e meticulosa. Contudo, nem sempre é possível remover completamente estas lesões, devido ao seu caráter infiltrativo, não respeitando tecidos ou estruturas, dificultando a remoção completa e favorecendo a recidiva. A remoção dos linfangiomas pode provocar transtornos imediatos e deixar seqüelas permanentes. Existem relatos na literatura de mortalidade associada a cirurgia convencional para casos de linfangiomas, principalmente os localizados em segmento cefálico. Além disso, no pós-operatório imediato de uma cirurgia convencional, as complicações mais freqüentes são edema local, coleção de secreção linfática drenada pelo leito operatório, rico em linfáticos, e infecção.

As seqüelas permanentes, estéticas e funcionais, decorrentes da cirurgia dos linfangiomas estão relacionadas principalmente com danos às estruturas vasculares e nervosas, promovendo deformidades que podem ser inaceitáveis para crianças portadora de lesões benignas. Uma das publicações mais relevantes na literatura, relatando os resultados da cirurgia radical como abordagem primária dos linfangiomas da infância, mostrou que houve dano permanente a nervos cranianos em 20% dos casos.

Os altos índices de morbidade limitam a indicação da cirurgia para tratamento dos linfangiomas, fazendo com que outras alternativas de tratamento fossem pesquisadas, especialmente a injeção intralesional de esclerosantes. Dentre as substâncias estudadas, o OK432 (Picibanil, Chugai Pharmaceuticals Co.) se destacou na literatura como uma excelente opção terapêutica. O OK432 é derivado de cepas de origem humana de baixa virulência do Streptococcus pyogenes do grupo A, tipo 3, encubados com benzilpenicilina.

Os idealizadores do OK432, OGITA et al., foram os primeiros a relatar os ótimos resultados da escleroterapia com OK432, com resposta completa em 21 dos 31 pacientes portadores de linfangiomas cervico-faciais tratados em um período de 10 anos.

Nos anos que se seguiram a divulgação do advento do OK432, foram publicados diversos relatos descrevendo o sucesso no tratamento dos linfangiomas (TABELA 1).

TABELA 1 - Resposta ao tratamento com OK432

0% < 50% > 50% 100% Total
Ogita et al. 1994 14 12 10 28 64
Mikhail et al. 1995 0 0 2 0 2
Motiwale et al. 1996 1 4 6 1 12
Ng and Wong, 1996 0 0 0 5 5
Schmidt et al. 1996 2 0 2 7 11
Smith et al. 1996 4 0 0 2 6
Claesson et al. 1998 0 0 1 4 5
Itália 2000 0 5 3 7 15
Brewis et al. 2000 2 5 2 2 11
Sung et al. 2001 3 3 2 12 20
Laranne et al. 2002 1 0 4 6 11
Claesson et al. 2002 1 1 4 26 32
Mello-Filho et al. 2002 0 0 2 4 6
Guiguère et al. 2002 8 2 1 18 29
TOTAL 36 32 39 123 229

Nas séries encontradas na literatura, relatando o resultado do uso do OK432 para tratamento dos linfangiomas, houve melhora de mais de metade do tamanho da lesão em 36,3% a 100% dos casos, sendo que a resolução total da lesão chegou a 100%. Estes resultados são animadores quando comparados com os resultados do tratamento cirúrgico dos linfangiomas.

As publicações acima mencionadas também sugerem que o tratamento com OK432, quando não atinge a resposta completa, favorece a ressecção cirúrgica posterior. Porém, o contrário não é verdadeiro, e a cirurgia prévia sim, prejudica a atuação do OK432. Portanto, estes dados nos levam considerar que a programação mais adequado é iniciar a abordagem terapêutica com aplicações de OK432.

Os efeitos adversos relatados nas publicações mencionadas foram: febre moderada transitória, por um período de até 4 dias, medicada com antitérmicos; edema local transitório com duração máxima de 7 dias. Nenhum efeito colateral sério foi encontrado nas séries publicadas.

Em um estudo multicêntrico (43 instituições), foram observadas reações à aplicação em 93 (98,9%) dos 94 pacientes tratados, porém as reações adversas mais freqüentes foram discretas e facilmente toleradas pelos pacientes: eritema e edema local em 80 (85,1%), febre em 79 (84,0%), dor local em 13 (13,8%), aumento da temperatura local em 10 (10,6%), e endurecimento local em 4 (4,3%).

Devido ao crescente número de publicações encontradas na literatura assegurando o OK432 como efetivo e seguro no tratamento dos linfangiomas, optamos por adotar esta modalidade terapêutica para os nossos pacientes.

O OK432, nome comercial Picibanil, é produzido pela Chugai Pharmaceuticals Co., que até o presente momento, não pretende comercializar o produto no Brasil.


Escleroterapia com OK432

Apresentação do OK432: frasco de 0,1mg/1ml e frasco de 0,5mg/ml.

A solução de OK432, em uma diluiçao de 0,01 mg/ml, é preparada com a diluição de 0,1 mg de OK432 em 10 ml de soro fisiológico 0,9%.

A escleroterapia é realizada através da punção percutânea da lesão. Quando a aspiração do conteúdo dos cistos é possível, o mesmo volume de OK432 é injetado, repondo o volume aspirado. Quando a aspiração do conteúdo dos cistos não é possível, como ocorre nas lesões microcísticas, a solução de OK432 é distribuida por toda a área comprometida. A aplicação é realizada sob sedação.


Dra. Heloisa G. A. Campos
Cirurgiã Pediátrica - Especialista no tratamento de Hemangiomas e Linfangiomas
Titular do Departamento de Cirurgia Reparadora - Hospital A. C. Camargo - São Paulo

Desenvolvido por InWeb Internet